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Alan Moore

Quando você lê um livro e dá vontade de tomar chá, por exemplo, você deixa de lado o livro, e vai tomar a sua xícara de chá. Se quiser voltar algumas páginas para lembrar de algo que foi dito páginas atrás, você pode fazer isso. O leitor é que tem que fazer todo o trabalho. Quando lê um livro, o que você faz é decodificar esses arranjos de vinte e seis palavras numa página, por exemplo. Você tem que criar uma imagem para todos os personagens. É capaz de imaginar as vozes deles. Você está conjurando um mundo inteiro, e o está fazendo sozinho. O trabalho é seu. O leitor está contribuindo para ter uma experiência. Não é o caso nos filmes. Você está lá sentado na sua cadeira, e o filme segue, correndo a, sei lá, 24 frames por segundo. A máquina está fazendo todo o trabalho por você. Está tudo pronto. Não precisa imaginar como tal personagem vai se parecer ou como é que ele vai soar. Porque o camarada ali na tela vai sempre se parecer exatamente como o Jack Nicholson, e aquele outro personagem lá vai falar exatamente como um ator qualquer… É negada a chance de ter uma imagem na cabeça. Você tem as possibilidades negadas. Você não está apto a contribuir ao filme, sua imaginação é simplesmente freada e é substituída pela imaginação de quem o fez. Eu tenho esse incômodo com adaptações de cinema. Quando você tem um público que cresce ao redor do cinema, há esse problema dos jovens que absorvem arte apenas se ela vier por uma tela. Isso encoraja à preguiça. Muitas das pessoas que vão ao cinema não precisam se preocupar em ler o livro, porque, obviamente, o livro é muito mais difícil, exige muito mais experiências do que apenas ficar sentado no cinema com uma tigela de pipoca no colo por 90 minutos… É por isso que me incomoda tanto essa coisa das adaptações.

Alan Moore, entrevista à Trip.

camangas

Escrever? que diabo significa isso? alguém está com medo ou com raiva do que escrevo. olho bem, e claro que tem uma máquina de escrever por perto. posso ser uma espécie de escritor, mas lá fora existe outro mundo, feito de manobras, imposturas, grupos e macetes.

deixo correr a torneira da água quente, entro na banheira, tiro a tampa de uma latinha de cerveja, abro o programa de corridas. o telefone toca. não vou atender. para mim, para você talvez não, está fazendo muito calor para foder ou escutar algum poeta menor. Hemingway tinha lá suas camangas. prefiro ancas de cavalo – sempre chegam mais rápido.

Crônica de um amor louco

Charles Bukowski

Ed. L&PM

fígado cru e cidadezinha

(…) certa vez conheci um cara que botava fígado cru dentro de um copo grande e fodia aquilo. quanto a mim nunca gostei de meter o meu troço dentro de qualquer coisa capaz de quebrar ou cortar. imagina a gente procurando um médico com o pau sangrando todo e tendo que explicar que ele se cortou enquanto fodia um copo. um dia eu andava vagabundeando numa cidadezinha do Texas e vi uma fulana, bem moça, corpo bacana, devia ser uma trepada fantástica, casada com um velho baixo e encarquilhado, sempre de mau humor e com uma espécie de doença que deixava ele tremendo dos pés à cabeça. a garota aguentava tudo e ainda tinha que empurrá-lo, para cima e para baixo. numa cadeira de rodas. e eu ficava pensando como é que ele fazia quando chegava a hora de papar toda aquela carne gostosa. até dava para ver o quadro, sabe, e aí, de repente, me contaram como era a história. quando ainda estava na adolescência, tinha enfiado uma garrafa de Coca na vagina, depois simplesmente não conseguiu mais tirar e teve que procurar o médico. aí ele resolveu o problema, e não sei como, todo mundo soube. depois disso não houve mais salvação para ela na tal cidadezinha e ela não teve cabeça para dar o fora de lá. ninguém mais quis a garota pra nada, a não ser aquele anão-mal-humorado, cheio de tremeliques. estava pouco ligando – a melhor foda local era dele.

Crônica de um amor louco

Charles Bukowski

Ed. L&PM

ah, que droga. então sentei e abri a garrafa de uísque. enchi dois copos comuns até a borda, tirei os sapatos, as meias, as calças, a camisa e peguei um dos cigarros dela. fiquei sentado só de cueca. sempre faço assim, logo de saída. gosto de me sentir à vontade. se a fulana achar ruim, foda-se. porta da rua, serventia da casa. mas elas nunca vão embora. deve ser por causa do meu jeito. tem umas que dizem que podia ser rei. outras falam coisas bem diferentes. fodam-se.

Crônica de um amor louco

Charles Bukowski

Ed. L&PM

xx e xxx

Um meio elegante é aquele onde a opinião de cada um se faz com a opinião dos outros. É feita no sentido oposto da opinião dos outros? é um meio literário.

A exigência do libertino que deseja uma virgindade é ainda uma forma da eterna homenagem que o amor presta à inocência.

Deixando os xx, você vai visitar os xxx, e a estupidez, a maldade e a situação miserável dos xx é desvendada. Cheio de admiração pela clarividência dos xxx, você enrubesce por ter tido anteriormente alguma consideração pelos xx. Mas, quando volta à casa deles, eles arrasam os xxx e quase com os mesmos argumentos. Ir à casa de ambos é visitar os dois campos inimigos. Apenas, como um nunca ouve a fuzilaria do outro, cada um acha que é o único que está armado. Ao se perceber que o armamento é o mesmo e que as forças, ou antes, a fraqueza, são iguais, deixa-se então de admirar aquele que atira e de desprezar o que é alvejado. É o começo da sabedoria. A sabedoria seria mesmo romper com ambos.

Os Prazeres e Os dias

Marcel Proust

Ed. RioGrafica.

E então, contemplando esse terraço aonde ele não voltaria mais, aonde ninguém poderia saciar seu desejo, e esse mar que o roubava dela e lhe dava em troca, na imaginação da moça, um pouco de seu grande encanto misterioso e triste, encanto das coisas que não nos pertencem, que refletem tantos céus e banham tantas margens – Violante se desfez em lágrimas.

- Meu pobre Augustin – disse ela à noite -, aconteceu-me uma grande desgraça.

Para ela, a primeira necessidade de confidências nascia das primeiras decepções de sua sensualidade, tão naturalmente como de ordinário nascem das primeiras satisfações do amor. Ela ainda não conhecia o amor. Pouco tempo depois, veio a ter um desgosto de amor, que é a única forma de chegar a conhecê-lo.

Os Prazeres e Os Dias

Marcel Proust

Ed. RioGrafica, 1986.

Sidarta – 3 -

“Não brinco, não. Digo apenas o que percebi. Os conhecimentos podem ser transmitidos, mas nunca a sabedoria. Podemos achá-la; podemos vivê-la; podemos consentir em que ela nos norteie; podemos fazer milagres através dela. Mas não nos é dado pronunciá-la e ensiná-la. Esse fato, já o vislumbrei às vezes na minha juventude. Foi ele que me afastou dos meus mestres. Uma percepção me veio, ó Govinda, que talvez se te afigure novamente como uma brincadeira ou uma bobagem. Reza ela: “o oposto de cada verdade é igualmente verdade”. Isso significa: uma verdade só poderá ser comunicada e formulada por meio de palavras quando for unilateral. Ora de unilateral é tudo quanto possamos apanhar pelo pensamento e exprimir pela palavra. Tudo aquilo é apenas um lado das coisas, não passa de parte, carece de totalidade, está incompleto, não tem unidade. Sempre que o augusto Gotama nas suas aulas nos falava do mundo, era preciso que subdividisse em Sansara e Nirvana, em ilusão e verdade, em sofrimento e redenção. Não se pode proceder de outra forma. Não há outro caminho para quem quiser ensinar. Mas o próprio mundo, o ser que nos rodeia e existe no nosso íntimo, não é nunca unilateral. Nenhuma criatura humana, nenhuma ação é inteiramente Sansara nem inteiramente Nirvana. (…) O tempo não é real, como verifiquei em muitas ocasiões. E se o tempo não é real, não passa tampouco de ilusão aquele lapso que nos parece estender-se entre o mundo e a eternidade, entre o tormento e a bem-aventurança, entre o Bem e o Mal.”

Sidarta

Hermann Hesse

Ed. Record

Sidarta – 2 -

“Ora, meu amigo – tornou Sidarta -, tu sabes muito bem que já na minha mocidade, naqueles dias que passamos na floresta, em companhia dos ascetas, cheguei a desconfiar de doutrinas e de professores, a tal ponto que lhes virei as costas. E assim me conservei. Desde então, porém, tive numerosos mestres. Uma formosa cortesã serviu-me de instrutora durante longos anos. Um comerciante abastado ministrou-me ensinamentos. Alguns jogadores de dados deram-me aulas. Certa feita, um peregrino, discípulo do Buda, foi meu mestre, quando permaneceu sentado perto de mim, enquanto eu dormia na selva, por ocasião de uma romaria. Também a ele devo certas noções e lhe fico grato por isso, muito grato. Mas a maior parte do que aprendi veio-me do rio e de meu predecessor, o balseiro Vasudeva. Foi um homem simples, esse Vasudeva. Nenhum filósofo. Mas sabia o necessário (…)”

Sidarta

Hermann Hesse

Ed. Record

Sidarta

” (…) Olha, Kamala, a maioria das criaturas humanas é como folha arrancada, a flutuar e revolver-se no ar, até ir ao chão. Outras, porém, parecem-se com os astros que andam numa órbita fixa, sem que nenhum vento possa alcançá-los, e têm em si próprios sua lei e sua rota. Entre todos os eruditos e samanas, com os quais travei contato, um único era assim, um homem perfeito, que jamais poderei esquecer. É aquele Gotama, o Sublime, o criador da doutrina que conheces. Dia a dia, milhares de discípulos ouvem essa doutrina; hora por hora, obedecem aos seus preceitos. Mas, todos eles são folhas arrancadas (…)”

Sidarta

Hermann Hesse

Ed. Record

Quem é Capitu?

Gênero: Ficção
Autor: Alberto Schprejer
Editora: Nova Fronteira

Contos,crônicas e ensaios sobre a personagem mais enigmática da literatura brasileira. Há uma pergunta que se faz desde que Dom Casmurro foi publicado. A pergunta não é, como parece à primeira vista, se Capitu traiu ou não Bentinho, mas sim: quem é Capitu?Responderam a esta pergunta a atriz Fernanda Montenegro; o diretor Luiz Fernando Carvalho; a historiadora Mary Del Priore; o professor e escritor Gustavo Bernardo; a jornalista e professora Carla Rodrigues; a escritora Lya Luft; o professor e escritor Silviano Santiago; o crítico John Gledson; o escritor Otto Lara Resende (in memoriam); os geniais Luiz Fernando Veríssimo e Millôr Fernandes; o psicanalista Luiz Alberto P. de Freitas; o antropólogo Roberto DaMatta; o jornalista e biógrafo Daniel Piza; e a escritora Lygia Fagundes Telles.

Cada um dos autores respondeu como quis e na forma que achou melhor: ora ensaio, ora depoimento, ora conto.

Os textos formam um painel precioso, para ser lido na ordem ou aleatoriamente, para ser discutido, para provocar conversas.

Altura: 21 cm.
Largura: 14 cm.
Acabamento: Brochura
Edição: 2008
Idioma: Português
País de Origem: Brasil
Número de Paginas: 176

Fonte: Porto Cultura

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